Açucena

Açucena

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Epitáfio para o Brasil (Maria Gonçalves Ibanhes)


Entregue tudo o que é mais caro
Para mim
Para o meu irmão
Para o vizinho
Para a Nação
Para o futuro
Para o passado
Para o povo
Para o presente
Para o estado
Para o nosso coração
Seja o que for
Invente
Tente
Atormente
A minha mente
Você não convence
Desmonte tudo
Venda
Troque
Jogue na roleta
Jogue no lixo
Jogue no bicho
Enterre o que sobrou
Na lápide, o epitáfio:
Aqui jaz o Brasil
Que você, otário, sonhou!
Bye bye!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Cismas do tempo... (Maria Gonçalves Ibanhes)


... E esse vento ... E esse tempo seco
... E esse tempo cinza...
Tempo estranho!
Melhor não ouvir o vento!
Não gosto do tempo assim...
O vento golpeando as janelas
Parece trazer um prenúncio
De algo que está por vir...
Meu olhar através da vidraça
Alcança infinitudes
E mistérios entrecortam o ar
Bailam por entre os vãos
Das soleiras e frestas
Percorrem a casa
Deixam as marcas
Do que não há
Tenho medo do tempo assim
Se ao menos chovesse
Trazendo promessas
De verdes de frutas de flores
Pro jardim e pomar
Se ao menos chovesse
E tirasse essa cisma
Que me habita e se deixa ficar...
 

Cismas do tempo... (Maria Gonçalves Ibanhes)


... E esse vento ... E esse tempo seco
... E esse tempo cinza...
Tempo estranho!
Melhor não ouvir o vento!
Não gosto do tempo assim...
O vento golpeando as janelas
Parece trazer um prenúncio
De algo que está por vir...
Meu olhar através da vidraça
Alcança infinitudes
E mistérios entrecortam o ar
Bailam por entre os vãos
Das soleiras e frestas
Percorrem a casa
Deixam as marcas
Do que não há
Tenho medo do tempo assim
Se ao menos chovesse
Trazendo promessas
De verdes de frutas de flores
Pro jardim e pomar
Se ao menos chovesse
E tirasse essa cisma
Que me habita e se deixa ficar...
 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Alice no País dos Absurdos (Maria Gonçalves Ibanhes)



Sou Alice

Encontro-me em um mundo paralelo

Cercada de uma SUPER REALIDADE

Ou IRREALIDADE

Difícil definir

Nonsense total

Do locus, das gentes

Dos animais da corte

Estes, raivosos

Corrompidos, sujos!

Todos correm em círculos

Há loucura por toda parte

Mas não há jardim

Nem bolo recheado

Que possa desfazer minha pequenez

Sou átomo impotente

E os enigmas são lançados

Rosas brancas e rosas vermelhas

Jogo de cartas

A cabeça de uma certa rainha

Está a prêmio

E há valetes de paus

Caras de pau

O julgamento é presidido

Por um rei condenado

Teatro do absurdo

República de bananas

Quem é inocente?

Queria ser uma lagarta azul

E ficar em paz

Fumando meu narguilé

Mr.  Habbit, me empreste o seu relógio

Acho que está na hora de partir

Ou acordar do pesadelo

terça-feira, 8 de março de 2016

O dia em que ela tornou-se Mulher... (Maria Gonçalves Ibanhes)



À todas as mulheres



Um dia, de súbito

Ela olhou-se no espelho e viu

Mais do que sua aparência física

Viu a imagem de quem ela é

Ela viu seus sentimentos

Seus pensamentos e opiniões

A respeito de tudo – da vida

Ela viu o seu corpo e alma marcados

Por séculos de dominação

Ela viu suas necessidades

Físicas

Mentais

Emocionais

Tantas vezes preteridas

Ela viu a matéria da qual é feita

Naquele instante revelador

Ela se cobriu de flores

E tatuou o seu corpo

Com suas próprias verdades

Abominou qualquer tipo de repressão

Pela primeira vez, sentiu-se dona de si

Senhora de sua vida

E foi naquele momento

Que ela jogou ao vento

Todas as humilhações

Todos os desamores

Todos os medos

Todos os dissabores

Todos os seculares mandamentos

Para uma mulher

Decidiu: eu farei meus próprios pecados

Eu não aceitarei menos do que eu mereço

E mereço muito

Não aceitarei em minha vida

Nada nem ninguém

Que desvirtue a minha essência

Serei eu

A comandar minhas vontades

A construir  meus caminhos

Foi assim, que desde então

Ela foi Feliz dentro de suas possibilidades

E porque não esperou mais

Nenhum um príncipe

Nem alimentou nenhuma expectativa

Que dependesse do “Outro”

E esqueceu que lhe ensinaram a depender

E refutou todas às violências

Contra a sua natureza

Apenas por isso – ou por tudo isso

Ela já sentiu-se imensamente feliz!

quarta-feira, 2 de março de 2016

Além do infinito do meu olhar... (Maria Gonçalves Ibanhes)




Não queira radiografar

Minha alma

Meus olhos não dizem

Mais do que um profundo

E drástico não-dizer

Talvez em cada raio da íris

Se esconda um rio

Um sentimento

Sabe-se lá...

Nem eu sei

Todas as provações das negras nuvens

Por ali se aprofundaram

De modo que a superfície

Nada pode revelar

As alegrias transbordantes

E as serenas perpassam

O infinito do meu olhar

Mas não podem conter

O fluxo de mistério

Entrecortado de crepúsculos

E alvoradas

Não tente entrar nesse poço

Ele apenas te revelará abismos

E labirintos

Não tente decifrar o enigma

Há só, quase visível

Um lance de dados

Mas se jogares

Poderás entrar num torvelinho

Tempestade é coisa certa...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mar e Sertão (Maria Gonçalves Ibanhes)


 

Eu que tinha atravessado

Todos os desertos

E visto o mar em sonhos

Alcançados com o desejo

Da alma

Um dia te vi

E o vermelho fogo

E alaranjado

Das terras quentes se dissiparam

E do meu olhar verde-cinza

Saltitaram chamas de luz

O sertão tinha virado mar

Mas eu ainda não sabia

Depois de ter visto os teus olhos

Acordei e a manhã florescia

A terra estava húmida

Com a humidade do meu corpo

Que já não era deserto nem só

Talvez eu tivesse morrido

E morrer era a melhor coisa do Mundo

Mas foi só tocares meus lábios

Percebi que estava em transe

Que os desertos ainda estavam

Em nossa volta

E o mar era só uma versão deles

Mas a diferença é que agora

Você estava ali

E se houvesse alguma travessia

Desértica ou marítima

Atravessaríamos segurando nossas mãos

Fitando o universo que habita

O olhar de cada um de nós

Universos particulares

Mas, ao mesmo tempo, tão cheios de intersecções

Um com o outro

Foram as intersecções

Que uniram mar e sertão

E são elas nossos elos

Para a eternidade

E são elas nossas fronteiras

E nosso apogeu

E são elas o nosso reverso

O nosso verso

A nossa vontade de continuar

Compartilhando as magias

Dos universos em nosso olhar