Açucena

Açucena

quarta-feira, 2 de março de 2016

Além do infinito do meu olhar... (Maria Gonçalves Ibanhes)




Não queira radiografar

Minha alma

Meus olhos não dizem

Mais do que um profundo

E drástico não-dizer

Talvez em cada raio da íris

Se esconda um rio

Um sentimento

Sabe-se lá...

Nem eu sei

Todas as provações das negras nuvens

Por ali se aprofundaram

De modo que a superfície

Nada pode revelar

As alegrias transbordantes

E as serenas perpassam

O infinito do meu olhar

Mas não podem conter

O fluxo de mistério

Entrecortado de crepúsculos

E alvoradas

Não tente entrar nesse poço

Ele apenas te revelará abismos

E labirintos

Não tente decifrar o enigma

Há só, quase visível

Um lance de dados

Mas se jogares

Poderás entrar num torvelinho

Tempestade é coisa certa...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mar e Sertão (Maria Gonçalves Ibanhes)


 

Eu que tinha atravessado

Todos os desertos

E visto o mar em sonhos

Alcançados com o desejo

Da alma

Um dia te vi

E o vermelho fogo

E alaranjado

Das terras quentes se dissiparam

E do meu olhar verde-cinza

Saltitaram chamas de luz

O sertão tinha virado mar

Mas eu ainda não sabia

Depois de ter visto os teus olhos

Acordei e a manhã florescia

A terra estava húmida

Com a humidade do meu corpo

Que já não era deserto nem só

Talvez eu tivesse morrido

E morrer era a melhor coisa do Mundo

Mas foi só tocares meus lábios

Percebi que estava em transe

Que os desertos ainda estavam

Em nossa volta

E o mar era só uma versão deles

Mas a diferença é que agora

Você estava ali

E se houvesse alguma travessia

Desértica ou marítima

Atravessaríamos segurando nossas mãos

Fitando o universo que habita

O olhar de cada um de nós

Universos particulares

Mas, ao mesmo tempo, tão cheios de intersecções

Um com o outro

Foram as intersecções

Que uniram mar e sertão

E são elas nossos elos

Para a eternidade

E são elas nossas fronteiras

E nosso apogeu

E são elas o nosso reverso

O nosso verso

A nossa vontade de continuar

Compartilhando as magias

Dos universos em nosso olhar

 



Se me levasses em Viagem ao Fim da Noite (Maria Gonçalves Ibanhes)







... Se me levasses em Viagem ao Fim da Noite

Não seria para encontrar chacais

Nem ver a guerra destroçando o mundo

Eu sei.

... Não me engano. Viajaríamos em nuvens

Cruzando os oceanos

E seria a lua nosso farol

E os ventos nossa bússola

Nenhuma euforia nos causa a guerra

Somos aves ciganas em busca do infinito

Por isso, eu sei

Nosso itinerário seria em busca de luz

Me levarias aos jardins desérticos

Onde a beleza é inesperada

E há, no horizonte, a confirmação

Da existência de Deus

... Eu sei.

Se me levasses em viagem ao fim da noite

Com a palma da mão, eu pegaria

O início de um novo amanhecer

... As cidades dormem

A espera daqueles que tecerão a paz

Eu sei.

Por enquanto, transformo em pérolas

As contas do meu colar

E acrescento um ponto ao conto

Que ameaça se dispersar na espessa bruma ...

domingo, 25 de outubro de 2015

Um poema (Maria G. de Ibanhes


Eram só eu
A lua
Um céu estrelado
O farfalhar do sertão
O calor morno
E a vontade da tua língua na minha
Com gosto de tapioca doce
Os corpos em leve açoite
O vento...
O cheiro de terra molhada
Melhor perfume do sertão
E tu na rede
Deleite da imaginação
Não era sonho
Era aluvião
Inundando os meus desertos
Era uma doida vontade
De te ter à luz do candeeiro
Iluminando meu rosto
Na noite escura
Olhos faiscantes
Mais luzentes que as chamas
E mais brilhantes que as estelas
Era um louco desejo
De sermos um só sertão
E atravessarmos juntos
Todas as travessias
“Riobaldearmos” as ventanias
Engabelarmos juntos os destinos
Mal traçados
Afastarmos qualquer melancolia
Era sou eu te esperando
Trançando sonhos
Costurando memórias
O sertão é vazão de fantasia...

Mãe com o Filho Morto (Maria Gonçalves de Ibanhes)


A dor!

O furor da dor

De ter um filho morto!!!

A avalanche:

Dor Imensurável

Dor Impensável  

Dor Incompreensível

A dor maior

Aquela que desatina

Que faz perder o rumo

O norte

O sentido da vida

A dor mais cruel

Mais fortemente dolorida

A dor mais cruelmente

Amalgamada no rosto de uma mulher

Eu vi! De perto

Por duas vezes, aquela dor palpável

Eu tive medo

Eu tive pena

Era impossível medi-la

Mas ela estava lá

Gritando

Naquele rosto

Naquela que estava partida

Visivelmente despedaçada

Eu vi! E só de lembrar

Da face da dor

Eu estremeço, me dói o peito!!!

Deus não devia permitir

Eu nunca mais quero sentir

A dor das outras

Aquela dor tão transparente

Tão violenta, que transborda

E respinga em cada uma de nós que somos mães

A dor daquela

Que teve o filho morto nos braços

A dor daquela que, pra sempre, viverá em pedaços

A dor daquela que traz um deserto no coração

E muitos espinhos dilacerando sua alma

Pra sempre!

Eu nunca mais quero ver!

Nem eu, nem Picasso

Nenhum artista, nenhum poeta

Nenhum deus

Nada, ninguém pode dimensionar

A dor da mãe que teve o filho morto

Ninguém!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Linhas Imaginárias (Maria G. Ibanhes)


As linhas imaginárias
Des limitam minha vontade
Perco o peso e a medida
Dou corda a agilidade
Vou da festa candelária
Às raves de toda a cidade
Monto o vento
Driblo o tempo
Rompo as margens
E as imagens
Corto as linhas
Faço voos e acrobacias
Desdigo as entrelinhas
Dou asas as fantasias
Atravesso quaisquer fronteiras
Surrupio o teu sotaque
Corrupio ruas e feiras
Compartilho o meu conhaque
Convivo com todas raças
Jogo limpo não tem trapaças
Rezo pra todos os santos
Em mim não pega quebranto
Pois creio em todos credos
No mundo eu me degredo
Assimilo várias culturas
Não ando com armaduras
Dou e recebo influências
Navego nas confluências
Dos mares a os sertões
Passo de pontes a grotões
Nenhuma barreira me barra
Sou livre como a garça
Tenho asas e imaginação
O mundo é minha nação
Nasci sem eira nem beira
Mas vivo no sem-fronteira
Só o que me prende é a paixão
Em mim, manda meu coração


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mata Branca (Maria Gonçalves Ibanhes)


Na caatinga
No ermo das horas vagas
Ao anoitecer caloroso
Uma brisa morna
Acaricia-me a pele
E cochicha ao ouvido
Lembranças árduas
Sopra  
Memórias hostis
Como uma touceira
De alastrado
Ao longe, mato a dentro
Uma coruja pia
O meu cabelo arrepia
Eu só queria ser
Chuva e terra molhada
Talvez a memória adocicasse
Talvez eu me lembrasse
De tentar esquecer
As fatalidades do destino
Aceitar os descaminhos
Não ser um cacto sozinho
Na imensidão da caatinga
A vida, tantas vezes, me fez
Virar deserto
Me confundo com o sertão
Mas fora os meus espinhos
Cercada da mata branca
Há em mim um oásis
Tem gente que o encontra
De vez em quando...