Açucena

Açucena

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Linhas Imaginárias (Maria G. Ibanhes)


As linhas imaginárias
Des limitam minha vontade
Perco o peso e a medida
Dou corda a agilidade
Vou da festa candelária
Às raves de toda a cidade
Monto o vento
Driblo o tempo
Rompo as margens
E as imagens
Corto as linhas
Faço voos e acrobacias
Desdigo as entrelinhas
Dou asas as fantasias
Atravesso quaisquer fronteiras
Surrupio o teu sotaque
Corrupio ruas e feiras
Compartilho o meu conhaque
Convivo com todas raças
Jogo limpo não tem trapaças
Rezo pra todos os santos
Em mim não pega quebranto
Pois creio em todos credos
No mundo eu me degredo
Assimilo várias culturas
Não ando com armaduras
Dou e recebo influências
Navego nas confluências
Dos mares a os sertões
Passo de pontes a grotões
Nenhuma barreira me barra
Sou livre como a garça
Tenho asas e imaginação
O mundo é minha nação
Nasci sem eira nem beira
Mas vivo no sem-fronteira
Só o que me prende é a paixão
Em mim, manda meu coração


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mata Branca (Maria Gonçalves Ibanhes)


Na caatinga
No ermo das horas vagas
Ao anoitecer caloroso
Uma brisa morna
Acaricia-me a pele
E cochicha ao ouvido
Lembranças árduas
Sopra  
Memórias hostis
Como uma touceira
De alastrado
Ao longe, mato a dentro
Uma coruja pia
O meu cabelo arrepia
Eu só queria ser
Chuva e terra molhada
Talvez a memória adocicasse
Talvez eu me lembrasse
De tentar esquecer
As fatalidades do destino
Aceitar os descaminhos
Não ser um cacto sozinho
Na imensidão da caatinga
A vida, tantas vezes, me fez
Virar deserto
Me confundo com o sertão
Mas fora os meus espinhos
Cercada da mata branca
Há em mim um oásis
Tem gente que o encontra
De vez em quando...






sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sonho de Sertanejo (Maria G. Ibanhes


Era de chuva o seu olhar
Mirando o azul infinito
Nuvens vazias no céu
Sol na imensidão
E só era ele
Naquele instante
De luz e tormento
Pastorando as cercanias
Oitivando o seu sertão
Olhar sobranceiro
Vislumbrava sonhos
Que se concretizassem
Na laje de pedra
Que esverdeassem
Os tons amarelo-alaranjados
Da caatinga
Cantiga de sertanejo
Pede chuva e fartura
Sonho, então, é oásis
É água banhando a terra
Lavando a alma
Irrigando as securas
E o verde a sorrir
Nas picadinhas
Nas travessias
Rio corrente - mar de alegrias
Criações saltitantes
Mugido feliz
Dos boizinhos no pasto
As catingueiras bailarinas
Dançando no ar
É querer muito, meu Deus?
A realidade é seca
E espinhosa como os cactos
Que o rodeiam
Triste como o olhar
Dos bichos com fome
Venenosa como a cascavel
Sorrateira
Que sinuosa passa pelos pedregulhos
Ele não quer perder a esperança
Nem blasfemar contra o Criador
Tem os filhos e a mulher
Morena faceira
Cheirosa como uma flor
Precisa ter fé
E salvar a fé dos outros
Vai chover
E o sertão há de florar
Era o que queria acreditar seus olhos




sábado, 19 de setembro de 2015

Des-construção da dor (By Maria G. de Ibanhes)


Às vezes, escurece em sombras
Nossas vidas
E a dor eclipsa toda luz
Então, a alma vagueia
Em busca de um clarão
Tenta encontrar a lua cheia
Teve uma vez
O sofrimento era tanto...
Que me refugiei
Na paisagem de um pintor qualquer
Quadro pendurado
Na parede do quarto de hóspedes
Ali vivi dias...
Ali construí histórias
Revivi doces memórias
Lá, presa na paisagem
Inventava felicidades
Lá, a casa era minha
No meio daquele bosque
Eu era rainha
E tinha ímpetos
De sobrevoar  imensidades
Ali, todos os verbos
Fluíam pro nós
Eu já não era aquele rio de solidão
A terra era fértil
E, no teu abraço
Eu já não era só
Nem fantasma
Nem pó
O riacho, regaço de todas as cantigas
Era nossa sinfonia
Ali vivi
Protegida de tua ausência
Até meus pés perderem o medo
De tocar a realidade


domingo, 9 de agosto de 2015

Saudade, papai! (Maria Gonçalves Ibanhes)


... Tinha um canto de amor
Que acariciava os dias
Havia esculturas de frutas
Que alimentavam as manhãs
Tinha um olhar de carinho
Que me dizia: te amo!
Tinha um abraço quentinho
Que espantava meus medos
Tinha histórias
Que me faziam sonhar
Tinha melodias
Que desenhavam o luar
Tinha um circo, um palhaço
E um mundo de cores
E você me mostrando
Como a vida pode ser divertida
Tinha uma roda gigante
Tinha um carrossel e a magia
Da sua mão guiando
As minhas acrobacias
Tinha um sorriso
Que brincava nos olhos
E me dizia: és linda!
Tinha um murmúrio
Me ensinando a rezar
“Santo anjo do Senhor...”
Tinha uma mão na minha mão
E passos lentos
Me levando à vida
Tinha você, curando minhas dores
Tinha você, cobrindo-me do frio
Tinha você, fazendo meu mingau
Preferido
Tinha você, salvando-me
Das fúrias, dos ventos e dos vendavais
E de repente, não tinha mais você
Nem seu canto, nem seus olhos, nem suas mãos
De repente, tinha um vazio!
Mas, tem em mim um tesouro:
Auto estima e todo o amor que você me deu
E ainda hoje pousa sobre mim
Um olhar esverdeando ternura





sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Agosto (Maria G. Ibanhes)


Ah, esses ventos invernais...
Inverno seco
E poeira no ar ...
Eu já nem me lembro
Do cheiro da chuva
Do ritmo da chuva
Pingando
Fazendo-me dançar
Sonhar
Pela Janela alcanço
Um Dali
É meu olhar
Derretendo cactos
E o relógio
Se fundiu à paisagem
O tempo parou
E eu já não sei quem sou
Talvez, por osmose
Seja um anjo surreal
Que te busca na desolação
Do deserto
Ou, talvez, seja, apenas
A persistência da memória
O sertão tem dessas miragens
E o anjo és tu
Que foste roubado
Da vida
Ficou somente
O “eco morfológico” do teu nome!

terça-feira, 16 de junho de 2015

De bruma, de fúria e de vendavais (Maria G. de Ibanhes)


Eu te queria tanto bem
Mas tu te fostes
Passarinho ferido mortalmente
Teu corpo estendido
Coberto pela manta de brumas
Ao anoitecer
Vida escoando
Para longe da terra seca
Da família e do cão
Sem plumas
E naqueles ventos outonais
Me viestes a memória
Como anjo vingador
Mas tão doce
Tua felicidade com minha presença
Minha tristeza com tua ausência
Minha fúria era um vendaval
Cortando os cactos
Quem os lanhava era eu
Nunca eles a mim
Inconformada com teu desaparecimento
Da pintura do sertão
Agora emoldurado
Pelo vazio da tua falta
Nunca mais colheremos cajus
Nunca mais olharemos o infinito
De cima da pedreira
Nunca mais conversaremos
Olhando as cabras comerem
Nunca mais relembraremos nossa infância
Desenhando no ar nossas travessuras
Nunca mais, nunca mais, nunca mais
É um tempo sem fim!