Açucena

Açucena

terça-feira, 12 de maio de 2015

À luz de velas (Maria G.)



Não digo
O que a luz da vela
Revela
Na chama do teu olhar
Que me chama
Pra trama
De sonhos saber tramar
Veloz brincadeira
Pro mundo acordar
Depois, o cansaço do ato
Meu colo
Teu  solo
A te acalentar
E eu, teu sono velo
No veludo escuro
Da noite que não tem luar

terça-feira, 17 de março de 2015

Diálogo com Bukowski Maria G. Ibanhes


Preciso tomar um banho
Para ir ao trabalho
Mas Bukowski não deixa
Me aconselha a pegar
A high way
E depois, as veredas do sertão
Enfrentar os pedregulhos
E arrancar poesia
Das pedras, da terra rachada
Dos espinhos, dos rios secos
Bukowski me disse
Larga mão do job
E vai sonhar com pássaros
E eu, imediatamente
Pensei no galo de campina
E no cancão preso
Na gaiola de minha amiga de infância
Pensei no viveiro de pássaros
Do pai de uma outra amiga
Cheio de canários
E barulho dos mais variados cantos
E as calopsitas da minha mãe?
Andam pela casa em pacífico convívio
Com o gato
“Um gato que não mata pássaro”
Ausência de dor!
A dor chegou de outra forma
Bang!
E atingiu minha alma
E isso é real!
E Bukowski continuou me instigando
A fazer poesia do dia-a-dia
Da minha bio-grafia
Tão sem poesia
Cheia de dor
Fazer fábulas poéticas
E delirantes do meu cotidiano
E eu lhe disse:
Meu único delírio é meu amor
É o amor pelos meus
E isso também causa dor
Porque a dor deles
É também a minha
Perpassa minha escritura
À revelia da minha vontade
Mas essa escritura doente
Dolorida, enferma
Me salva da loucura
Da morte!
Não uso entorpecentes
Nem tenho talento para ser bêbada
Nem vou à casa de Deus
Para aguentar a vida
Deus onipresente
Mergulhou no meu inconsciente
E lá ficou
Não preciso de igreja
Por isso.
Mas não posso largar o job
Não sei morrer de fome
E poesia não compra pão
Compra lua
E imaginação
E afronta o SISTEMA
Afrontar é meu forte
Eu faço poesia no drible
E mando os caretas se foderem!
Bukowski vibrou e disse:
“O poeta nada pode sem sofrimento”
Eis a nossa maldição, pensei eu
Me incluindo entre os poetas
Eu, tão aprendiz!
Mas sabia que a fonte poética
Estava em meu quintal
No meu meio do sertão
E no que a vida me fez.
Entre calangos e pássaros
E nas estórias
Que nunca contei.


terça-feira, 10 de março de 2015

A cabra (Maria G. Ibanhes)


De poeira e vento
Era aquela tarde crepuscular
E eu seca e faminta
Remoía com gosto
Aquelas últimas vagens de algaroba
Meu olhar caprino
Era triste e agourento
Prévia meu fim
Como o das minhas irmãs
Que morreram esqueléticas de fome
Seus ossos espalhados
Pelos terreiros ou na beira do açude vazio
Terra rachada!
Devastada como o olhar de sinhá
Que eu sei
Pensa me fazer alimento
Aquelas rugas na testa e os olhos franzidos
Rugas forjadas pela seca
Mais do que pelo tempo
Mostravam seu pensamento
Se eu ainda me arrastava
Por entre a caatinga
Devia isso ao pequeno
Que me dedicava amor
E a quem alimentei com meu leite
Mas agora minhas tetas
Saquinhas murchas
Nada tinha a ofertar
E a família tinha fome
A caça estava escassa
O pai, vez ou outra, achava um preá
Um teju, um tatu
Mas os bichos estavam fugindo
Pro oco da terra
E os homens, cada vez mais, ocos de fome
Ai de mim! Ai deles, ai de nós!
Que eu não me adentre ao reino da morte!
Os olhos fundos dos meus donos
Têm a fundura das cacimbas
E o salobre da água restante
Talvez, eles tenham encontrado
Em sonho, olhos laminados
De sol e desespero
No reino de sonho da morte
Lá, os mandacarus brandem espinhos
E as aves despenam suas asas
O vento é lânguido
E não aplaca o calor
E os rostos das gentes
São pálidos e ossudos
E dos seus olhos
Límpidas lágrimas fulgem
Misturam-se ao fogo
Que brota da terra
Eu não queria morrer
Mas aquele foi meu último entardecer
Eu fui, cedinho, me embrenhando
No campo de nuvens
Sentindo a mão do pequeno me acariciar
O sol começava brilhar
E eu sentia gotas mornas
Me aguar
Eram as lágrimas do pequeno
Último alento
Acalanto
Para o meu caminhar
Depois, tudo era verde
E eu pastava feliz
E ainda podia sentir as carícias do pequeno.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Rebeldia Selvagem (Maria G. de Ibanhes)


Que me importa a gramática
Estou farta de regras!
Quero o arcaico
Das palavras
A “primordialidade”
A insensatez
A selvageria
A rebeldia
Quero desmembrar
Seus prefixos
Seus sufixos
Extrair suas raízes
Quero comê-las
Saboreá-las
Como se fossem
Doce de jaca
Sorvete
Umbu, cajá
Quero ruminá-las
Deitar
Sobre toda a mais perigosa semântica
E delirar no arcabouço
De seus gemidos
Mais íntimos
Quero desvendar a sua pré-história
E inventar impossíveis combinações
A sintaxe quero desorientar
E desordenar o verbo
O predicado, o sujeito...
Criar a morfologia
Que eu quiser
Corromper todas as estruturas
As regras desconstruir
E se algum gramático
Me cobrar pedágio
Vou gargalhar letras
Disformes e palavras
Sem sentido!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PALHAÇO (Maria Gonçalves de Ibanhes)


   
O palhaço ri e faz graça
Brinca na praça
Dá cambalhota
Conta lorota
Traz alegria pra criançada
Faz corrupio na arquibancada
Colore o dia
Pula e faz  acrobacia
 De fantasia vira um chiste
Faz a plateia virar piada
Se fica triste
A suas lágrimas
Viram confetes, viram risadas
E no picadeiro
Toca pandeiro
Espanta o siso
E traz o riso
Pura alquimia com a molecada
Seu coração
Pura  emoção
No  tudo ou nada



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Carta de amor (Maria G. de Ibanhes)

 

Eu estava querendo escrever uma carta de amor
Daquelas cheias de corações vermelhinhos
Mas cartas de amor são tão over
Depois do celular, da internet, do facetime
As cartas de amor ficaram out
Por outro lado, o meu olhar poesia
Escapa desses meios
Fugidio, ele plasma
Na escrita
E minha palavra poética
Dita
Pode perder o sentido
Porque escrever é carimbar
Autenticar o amor
Registrar!
O escrito amoroso pode ser passaporte
Como a madeleine de Swann
E, num momento,
Recuperar o tempo perdido
No fundo da gaveta
Amarelada
A cartinha
Vira memória/lembrança
Não quero deixar fugir minhas palavras
Não quero deixar de descrever nossas paisagens
Sempre tão idílicas
Apropriadas à descrição
O mares verdes, azuis, refletindo nossas miragens
O Cristo Redentor, querendo nos abraçar
Os centros históricos das mais diversas cidades
Gravando nossos pés nas ruas
As florestas se harmonizando
Com a nossa natureza selvagem
As cachoeiras nos banhando os corpos
Purificando nossas almas
Num banho de renovação
É mais romântico escrever:
Prefiro teus 50 tons de mel
Do que  os 50 tons de cinza
Talvez, escrito
Não pareça tão ridículo
Talvez, as cartas de amor
Não sejam tão ridículas
Como quer Pessoa
Na escrita
O verbo reverbera
Ecoa
Chama complementos
Ou, simplesmente
Não transita
Mas na carta de amor
Amar é sempre transitivo
E vai direto pra seu complemento
Enquanto o dito
Fica pelo não dito
E se perde no ar...


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Beduíno (By Maria G. Ibanhes)


Tenho andado por todos os desertos
Vivi entres secas e rios vazios
Os verdes que vi
Foram aqueles das vegetações desérticas
Espinhosas como a vida
E o da esperança teimosa
Que me habita
Tive que ser rude nos movimentos
Nas atitudes, tantas vezes
Mas o meu olhar denuncia
Há, na minha alma
Uma imensidão suave e terna
De sentimentos – o amor
Pelas pequenas coisas do chão
E das raízes que me fincam nesse torrão
Hostil, destemido
O qual moldou minha própria coragem
E nele, renasci cacto
Depois de morrer pela justiça
Que acreditei.
Continuo explorando desertos
Mas, hoje, sei aguar meu próprio corpo
E minha alma é um oásis.