Açucena

Açucena

domingo, 2 de novembro de 2014

Voo dos anjos (Maria G. de Ibanhes)


Quando um anjo voa
Buscando o azul do firmamento
As palavras somem
Fica a dor
Latente
Inominável
Inexorável
Imensurável
Dilacerante
E as interrogações
Não pronunciadas
O silêncio é bálsamo
Mas a tristeza soa
À revelia das palavras não ditas
E é quase palpável
Talvez, uma única resposta:
Anjos não se adaptam
A essa terra devastada
Voam em busca de luz
Oremos!




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Surreal Sertanejo (By Mary Ibanhes)


Em meio ao areial solto
Nas ” ilimitades”  amarelo-rubras do sertão
Há, em minha alma, lampejos corados
De futuros mais-que-perfeitos
E solidões outonais
Onde o passado tem punhais
De mandacarus amortecidos pelo tempo
Descorados e brandos...
Só o cheiro da terra molhada de chuva, o desenho de amor infinito
Que fito em teus olhos
Fazem minha alma brotar e transladar
Aqueles futuros mais-que-perfeitos para o futuro imediato
Porque mais que chuva, eles trazem
Verdes e plantações e farturas
De amor, de lírios do campo, de milharais
E formosuras comestíveis
Alegrias caprinas, bovinas e passarinhescas
Eu e tu, no sertão sem seca
Nessa hora, todos os deuses rezam
Enquanto eu e tu descansamos embaixo de frondoso umbuzeiral...

sábado, 14 de junho de 2014

Noite negra (By Mary Ibanhes


Noite terrível!
No silêncio das ermas horas
Um tic-tac de coração estrondava
Os vazios da caatinga
O pensamento via miragens estéreis
De  amores violados
Como a terra devastada
Nada havia para assegurar a paz
O canto da coruja era místico
E preconizador
Da transformação da angústia em dor
E a doçura daquele coração
Petrificava em medo
A voz do vento
Cortando os espinhos do mandacaru
Sibilava segredos distantes e medonhos
Nem os grilos cantavam
Embaixo das touceiras de facheiro
Nem lua havia para jogar
Um rasgo de luz
Que iluminasse o verde daquele olhar
Feroz, triste, morto
Ou mostrasse outra cor
Além do negrume da noite
Do “assum preto” e daquela
Alma cega como o pássaro
Que diferente dele não sabia cantar
Mas urrava dilacerada
Por uma “verdade” presumida
E seus urros açoitavam o tempo
Nem a chuva torrencial poderia
Lavar tanto desassossego
E alegrar os traços
Daquela face desesperada
Mas um assobio da consciência
Lembrou-lhe de quem ela era
Da terra de onde viera
E da força monumental
Que sempre a salvou
Filha da terra seca
Filha da luz do sol
Estrela ressuscitável
O amanhã nasceria
E ela colheria horizontes
Teceria enluaradas fantasias

quinta-feira, 5 de junho de 2014

“Pra não dizer que não falei das caçimbas” (By Mary Ibanhes)


De vivos, só há  
Eu e aquela caçimba
No meio daquele rio sem fim
Seco, arenoso e  morto
O resto são ossadas de bichos
E no infinito, nenhuma promessa
O excesso de luz promete  trevas
A  água da caçimba é salobra
De verde, só existem meus olhos
E  minha esperança
De seguir  “rio abaixo”
E  encontrar o mar
Mas o mar não é solução
Que dissolve angústias de sertanejo
No coração aquele aperto
De quem  sabe que o fim virá
Mas do fundo da alma
Nasce  uma oração
 E se não é miragem
Fotografada pelo meu olhar
 Miro uma revoada de asas brancas
Voltando para o sertão
Talvez a chuva venha
E minhas lágrimas também
Molhando as securas da terra e dos amores perdidos.

sábado, 24 de maio de 2014

Um blues no deserto (By: Mary Ibanhes)


Em mim, o deserto
Todos os desertos
Sem  previsão de chuva
De palavras soltas, muito menos de poemas!
Talvez chuvisque palavras cactos
Espinhosas e sem delicadeza
E no meio das dunas
Surjam  versos  de dor
Poesia também se faz com
Almas e corações esfacelados
Entre uma rima e outra
Sempre nasce uma flor.
E o vento arenoso
Sopra um blues manhoso
A chorar o amor
Que não posso ter.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Advertência poética (by Mary Ibanhes)



O que escrevo não se escreve
É só canto pra ninar
Passarinho
É só música pra borboleta
Dançar
É só verso pra amainar
A seca
É só dança pra nuvem
Chover  
É só história de trancoso pra calango
Dormir
É só prosa pra vaqueiro
Sonhar
O que escrevo não tem licença de
Verdade
O que escrevo não traduz
Sentimentos
O que escrevo tem parentesco
Com sonhos e paisagens
E é só! 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

História de Maria pescadora (By Mary Ibanhes)


Era nas barrancas dos rios
Que ela pescava sonhos
Cada peixe cintilava uma promessa
Daquele mundo intuído
Em pensamentos voadores
A solidão era sopro de vento
E pássaros cantando nas copas das árvores
Ela murmurava pra outra
No espelho d’água:
Minha vida é pescar, pescar, pescar
E a outra de si
Repetia: pescar, pescar, pescar
Num eco que descia a correnteza
Até alcançar o mar..
Se eu fosse um peixe, pensava
Chegaria ao mundo de lá...
Mas, um dia, Maria se encanta com livros
E, pescando palavras, descobre
Todos os mundos que há...