Açucena

Açucena

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A lua e o vaqueiro (A Elomar Figueira) (By Mary Ibanhes)

Oh,  lua  cheia
Alumia todo o sertão
É tão grande o teu clarão
Põe  foco na viola
E nos grilos que fazem seresta
E acompanham o tocador
Dedilhando nas cordas
Canção que chora
Saudade do amor que foi
E não voltou...
Oh,  lua afaga a face do vaqueiro
Olhar perdido no terreiro
Cantando a sua dor.
O seu “canto é de incelença”
Lua,  renova sua crença
Na volta daquele  amor
Não vês
No rosto alumiado
Tantas gotas de orvalho
Desmontando o cantador?
Vai,  luar, consola
Traz perfume de esperança
Ventos de amor e dança
Seca com tua luz
A tristeza molhada
De olhar tão infeliz.

sábado, 15 de março de 2014

Retrato de um sertanejo (Maria Ibanhes) (Ao meu irmão, Francisco de Assis)


A brisa morna soprava-lhe o rosto carinhosamente
Enquanto ele olhava a caatinga com olhos chuvosos
Se chovesse podia plantar milho, feijão, jerimum, melancia
E ver as criações saltitantes
Agora elas vêm famintas, tocando seus chocalhos
Tristemente.
Ele joga as vagens de algaroba e bodes e cabras
Comem freneticamente.
Para as galinhas joga milho pro outro lado do terreiro
Seus olhos alcançam a imensidão azul
Se chovesse o sertão ficaria mais bonito
O toque dos chocalhos é quase uma canção
Ele coça a cabeça embaixo do chapéu de couro
Tudo é árido e pedregoso, como a vida
Mas existe o verde do mandacaru e da catingueira
Com suas flores amarelas para amenizar
A dureza da pedra. A vida também é assim.
Seus olhos sorriem, a gente tem que lutar
E ter fé – a esperança também é verde
E se em seus pesadelos mais terríveis o sertão
Derretia – formando imagens disformes das cabras
Das vacas e dos galináceos e dele próprio
Como os relógios de Dali
Da li, de onde estava, sentado no batente de pedra
O sonho era outro, chovia e tudo era fartura
E beleza – O sertão não sai de nós
E sertanejo não chora. Passou a mão pelos olhos.
Seus olhos alcançam o infinito
E ele confundia-se com tudo aquilo
Terra, pedras, criações, cactos, caatinga – Sertão!
Ele é o sertão!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Um canto de saudade (Maria Ibanhes)


Hoje meu canto é de saudade
Lembro a felicidade
Que você dá pra mim
Olho as estrelas errantes
O luar atrás dos montes
Ouço o som de um bandolim
Terra seca no escuro da noite
Clama chuva e o vento é açoite
Como a terra eu chamo por ti
Canta triste a coruja e parece sentir
A tristeza que brota espinhando
Minha alma cortando
De esperar por ti
O meu corpo de pedras revesti
Inútil artifício! Meu coração canta aboio
De vaqueiro, é o mugido das reis
Com fome, chamando por ti
Que caminhas em terras ciganas
E os dias todos adiáveis
Prolongam a espera
Esquecem a primavera
E você, tal chuva no sertão
Parece não querer  vir
Meu pranto molha a tatarena
E se a rima é feia para o sertão, então
Mais que ligeiro ela há de florir
Aí a rima se ajeita, você chega e volto a sorrir...


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Flor de mandacaru (Maria Ibanhes)



Minhas palavras tantas vezes punhal
Ferem minha própria carne
Sou planta espinhosa  -  minha folhagem
Virou espinho,  mas no escuro da noite
Lanço sementes de  flores  pelo caminho
E dentro de mim mora um oásis
Diante do teu olhar, minha aridez se transforma:
Sou veludo, sou  pluma, sou  pétala
Sou asas serenas no azul do céu
E um rio inteiro me rega a alma
Porém, não posso me livrar de minha couraça
Meus espinhos-punhais me mantêm a vida
E só você conhece o meu segredo
E só você me livra do medo
E só pra você me desnudo dos espinhos
E só pra você, sou asa branca - sou passarinho
E só pra você, alastro a terra de flores brancas.






terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Desafio (By Maria Ibanhes)


Eu escrevo mesmo
É pra fugir desse DESLOCAMENTO todo!
Os espinhos dos cactos são mais atraentes
Do que certas roseiras esquálidas que cruzam o meu caminho.
Tenho coceiras delas! Eu – fora de loco total!
Meu pensamento alcança longas distâncias...
E eu sinto: o cheiro de minha terra, o calor
E as boiadas barulhentas, tocando seus chocalhos
O toque do chocalho é uma canção
Acompanhando o aboio do vaqueiro
Ela evoca  mitos do sertão
Lampião risca peixeira na pedra
E Corisco apanha relâmpago e abraça trovão
Maria costura estrelas num certo gibão
Enquanto “aquela” pesca o peixe que é dado na mão
E a outra Maria fia uma história
Com fios de sangue do seu coração
Tão inadequada! Por que não faz uma oração?
Eu prefiro retirar a rima e convidar as Marias
Pra, num desafio, dançar um xaxado no meio do sertão
Quero ver quem ganha o bailado, quem toca o roçado
Quem ama com tanta emoção...
Quem chama um “repente” e empresta luz para a CRIAÇÃO.




domingo, 9 de fevereiro de 2014

Flor Caatingueira (By Maria Ibanhes)


Ah, que atroz audácia!
Eu que tive de desentranhar
Da terra minhas raízes...
Prefiro a coroa de frade – flor espinhosa
Àquelas flores doentias:
Pálidas, desperfumadas, estéreis
Foi do deserto que extrai meu sumo
E foi lá, in loco, que rabisquei
Meus primeiros escritos, às vezes,  roubados!
Talvez meus versos destoem do resto do mundo
Sou inadequada para todas as insensibilidades
Talvez eles gritem impropérios
E soem secos tórridos tristes
Mas quando eles encontram eco
Nasce um oásis – chove
Na terra seca e devastada.
E eles assoviam para a “Asa branca” e acompanham a “Romaria”
O inverno pode chegar.
Agora, “escrevo em exílio, sem literatura.”
Mas a memória rastela todos os signos
E a luz vem e o dia raia um poema.
Quem disse que no deserto não se colhe flores?





sábado, 25 de janeiro de 2014

Aromas frutais (By Maria Ibanhes)



Minha história é feita
De pedras, espinhos e calor
Mas tem brisas por meus caminhos
Aromas de frutas e de flor.
Tem o colorido agreste
Da flora do meu nordeste
E os vários tons carmesins

As frutas e suas cores
Seus variados sabores
Me lembram um tempo alegre
Arrepiam minha epiderme
Com aqueles gostos molhados

A matutina melancia
Era a nossa alegria
Depois que a gente comia
Brincava o resto do dia
Com as esculturas de casca
Talhadas por nosso pai

A manga então, amarela
Verde ou vermelha
Açucarada ou travosa
Escorria pescoço à fora
Derretida a carne-cetim
E eu pintada de manga
Derramada de caldo
Nada tinha de metafórica
Era a lógica
Da menina anjo-querubim

E a cana-de-açúcar?
Fruta magra
Parece carcaça
Mas é cheia de água
Doce como o mel
E  antes de ser chupada
Virava rosa de rodelas
Em  talos de bambu fincada

Ah que doçura de infância!
Tudo era luminância
Até fruta era brinquedo
A vida não tinha segredo
Brincávamos de “jogos frutais”
E tinha caju carambola
Mangaba e graviola
Pitomba e maracujá
Seriguela e também cajá