Açucena

Açucena

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Um canto de saudade (Maria Ibanhes)


Hoje meu canto é de saudade
Lembro a felicidade
Que você dá pra mim
Olho as estrelas errantes
O luar atrás dos montes
Ouço o som de um bandolim
Terra seca no escuro da noite
Clama chuva e o vento é açoite
Como a terra eu chamo por ti
Canta triste a coruja e parece sentir
A tristeza que brota espinhando
Minha alma cortando
De esperar por ti
O meu corpo de pedras revesti
Inútil artifício! Meu coração canta aboio
De vaqueiro, é o mugido das reis
Com fome, chamando por ti
Que caminhas em terras ciganas
E os dias todos adiáveis
Prolongam a espera
Esquecem a primavera
E você, tal chuva no sertão
Parece não querer  vir
Meu pranto molha a tatarena
E se a rima é feia para o sertão, então
Mais que ligeiro ela há de florir
Aí a rima se ajeita, você chega e volto a sorrir...


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Flor de mandacaru (Maria Ibanhes)



Minhas palavras tantas vezes punhal
Ferem minha própria carne
Sou planta espinhosa  -  minha folhagem
Virou espinho,  mas no escuro da noite
Lanço sementes de  flores  pelo caminho
E dentro de mim mora um oásis
Diante do teu olhar, minha aridez se transforma:
Sou veludo, sou  pluma, sou  pétala
Sou asas serenas no azul do céu
E um rio inteiro me rega a alma
Porém, não posso me livrar de minha couraça
Meus espinhos-punhais me mantêm a vida
E só você conhece o meu segredo
E só você me livra do medo
E só pra você me desnudo dos espinhos
E só pra você, sou asa branca - sou passarinho
E só pra você, alastro a terra de flores brancas.






terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Desafio (By Maria Ibanhes)


Eu escrevo mesmo
É pra fugir desse DESLOCAMENTO todo!
Os espinhos dos cactos são mais atraentes
Do que certas roseiras esquálidas que cruzam o meu caminho.
Tenho coceiras delas! Eu – fora de loco total!
Meu pensamento alcança longas distâncias...
E eu sinto: o cheiro de minha terra, o calor
E as boiadas barulhentas, tocando seus chocalhos
O toque do chocalho é uma canção
Acompanhando o aboio do vaqueiro
Ela evoca  mitos do sertão
Lampião risca peixeira na pedra
E Corisco apanha relâmpago e abraça trovão
Maria costura estrelas num certo gibão
Enquanto “aquela” pesca o peixe que é dado na mão
E a outra Maria fia uma história
Com fios de sangue do seu coração
Tão inadequada! Por que não faz uma oração?
Eu prefiro retirar a rima e convidar as Marias
Pra, num desafio, dançar um xaxado no meio do sertão
Quero ver quem ganha o bailado, quem toca o roçado
Quem ama com tanta emoção...
Quem chama um “repente” e empresta luz para a CRIAÇÃO.




domingo, 9 de fevereiro de 2014

Flor Caatingueira (By Maria Ibanhes)


Ah, que atroz audácia!
Eu que tive de desentranhar
Da terra minhas raízes...
Prefiro a coroa de frade – flor espinhosa
Àquelas flores doentias:
Pálidas, desperfumadas, estéreis
Foi do deserto que extrai meu sumo
E foi lá, in loco, que rabisquei
Meus primeiros escritos, às vezes,  roubados!
Talvez meus versos destoem do resto do mundo
Sou inadequada para todas as insensibilidades
Talvez eles gritem impropérios
E soem secos tórridos tristes
Mas quando eles encontram eco
Nasce um oásis – chove
Na terra seca e devastada.
E eles assoviam para a “Asa branca” e acompanham a “Romaria”
O inverno pode chegar.
Agora, “escrevo em exílio, sem literatura.”
Mas a memória rastela todos os signos
E a luz vem e o dia raia um poema.
Quem disse que no deserto não se colhe flores?





sábado, 25 de janeiro de 2014

Aromas frutais (By Maria Ibanhes)



Minha história é feita
De pedras, espinhos e calor
Mas tem brisas por meus caminhos
Aromas de frutas e de flor.
Tem o colorido agreste
Da flora do meu nordeste
E os vários tons carmesins

As frutas e suas cores
Seus variados sabores
Me lembram um tempo alegre
Arrepiam minha epiderme
Com aqueles gostos molhados

A matutina melancia
Era a nossa alegria
Depois que a gente comia
Brincava o resto do dia
Com as esculturas de casca
Talhadas por nosso pai

A manga então, amarela
Verde ou vermelha
Açucarada ou travosa
Escorria pescoço à fora
Derretida a carne-cetim
E eu pintada de manga
Derramada de caldo
Nada tinha de metafórica
Era a lógica
Da menina anjo-querubim

E a cana-de-açúcar?
Fruta magra
Parece carcaça
Mas é cheia de água
Doce como o mel
E  antes de ser chupada
Virava rosa de rodelas
Em  talos de bambu fincada

Ah que doçura de infância!
Tudo era luminância
Até fruta era brinquedo
A vida não tinha segredo
Brincávamos de “jogos frutais”
E tinha caju carambola
Mangaba e graviola
Pitomba e maracujá
Seriguela e também cajá


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Imagens do Sertão (By Maria Ibanhes)


O silêncio é uma pedra
Onde o calango escorrega
Olhando a flor amarela
Da catingueira verdinha
Que nos serve de sombrinha
Para o calor aplacar...

E o Sertão andaluz
Ilumina o que produz
Em facheiros, mandacarus
E selvagens lastrados de espinhos
Ilumina também os bichinhos
Com seus chocalhos a tocar
A vaca mocha a berrar
Fazem uma sinfonia
E barulhentos acordam o dia
Para a vida começar...

Quando o dia amanhece
Os olhos do sertanejo
Parece que rezam uma prece
E alcançam o pasto inteirinho
Vêem as algarobas e palmas
E os animais no caminho...

Tudo é luz e sol
Ampliando as rimas
Quentes das pedras
A urdir versos sem métricas
Ferindo a face da terra
Do homem e de qualquer deus...

Um cajueiro é um oásis em festa
Com a carnação dos seus frutos
Todo cercado de arbustos
Vigiado por avelós  
Faz o vaqueiro
Trigueiro
Aguar os lábios brejeiros
Com sua mordida veloz

Aqui tudo é quente
Não tem filosofia de kant
Ou de qualquer outro filosofo
Que explique o que é nosso
Nesses currais do sem fim
E quem pensa que somos só fome
Esquece a teima do homem
Nesse sertão carmesim

E como disse o  Santana:

“O que eu queria era ver:”
A metafísica de um bacana
Explicar a essência
Que emana
Do homem que vive aqui
Porque quem que disse
Que só temos fome e carência
Esquece que nossa essência
Só do sertão pode vir

É com a mesma teima
Da macambira e dos cactos
Que o sertanejo verseja
Não obedece, mas veja
Ele é o filósofo daqui.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Trevo de 4 folhas (By Maria Ibanhes)

Nas ladeiras de Olinda
Ao lado do meu amor
Passeando à vontade
Não encontramos o frevo
Nos acordes da saudade
Achamos um  pé de trevo
Na superfície de um lago
Colhemos dois, num afago
Com as quatro folhas verdinhas
Fazendo rimas bem clarinhas
Acenando-nos promessas de felicidade
Tinha também borboletas
Voando em carrapetas
E um ninho, nas margens
De nosso caminho
Agouros de sorte e carinho
Pra nos amarmos até a eternidade!