Açucena

Açucena

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Agosto (Maria G. Ibanhes)


Ah, esses ventos invernais...
Inverno seco
E poeira no ar ...
Eu já nem me lembro
Do cheiro da chuva
Do ritmo da chuva
Pingando
Fazendo-me dançar
Sonhar
Pela Janela alcanço
Um Dali
É meu olhar
Derretendo cactos
E o relógio
Se fundiu à paisagem
O tempo parou
E eu já não sei quem sou
Talvez, por osmose
Seja um anjo surreal
Que te busca na desolação
Do deserto
Ou, talvez, seja, apenas
A persistência da memória
O sertão tem dessas miragens
E o anjo és tu
Que foste roubado
Da vida
Ficou somente
O “eco morfológico” do teu nome!

terça-feira, 16 de junho de 2015

De bruma, de fúria e de vendavais (Maria G. de Ibanhes)


Eu te queria tanto bem
Mas tu te fostes
Passarinho ferido mortalmente
Teu corpo estendido
Coberto pela manta de brumas
Ao anoitecer
Vida escoando
Para longe da terra seca
Da família e do cão
Sem plumas
E naqueles ventos outonais
Me viestes a memória
Como anjo vingador
Mas tão doce
Tua felicidade com minha presença
Minha tristeza com tua ausência
Minha fúria era um vendaval
Cortando os cactos
Quem os lanhava era eu
Nunca eles a mim
Inconformada com teu desaparecimento
Da pintura do sertão
Agora emoldurado
Pelo vazio da tua falta
Nunca mais colheremos cajus
Nunca mais olharemos o infinito
De cima da pedreira
Nunca mais conversaremos
Olhando as cabras comerem
Nunca mais relembraremos nossa infância
Desenhando no ar nossas travessuras
Nunca mais, nunca mais, nunca mais
É um tempo sem fim!





quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sinais Apocalíticos Maria G. Ibanhes


Estamos perdidos
Estamos todos perdidos
E há sangue em nossas mãos
Há sangue em nossos corpos
Não há relva nos campos
Nem pássaros
Nem florestas
Nem rios límpidos
Nem animais
As crianças nascem tortas
E as mulheres perdem seus seios
Não podem amamentar
Há sinais de loucura no ar
Há sinais de revolta dos deuses
Há um grande mistério pra ser decifrado
Mas ninguém sabe ler.  Nada!
Estamos todos cegos
Nas manhãs, a escuridão escoa
E as noites, as trevas não enxergam o luar
Há murmúrios de rezas
Mas são falsas
Há um terror latente, em cada coração
O mar está sempre revolto
Prenúncio de tsunamis!
Há lágrimas molhando os desertos
Mas não servem para fertilizar o solo
Há cactos espinhosos que ferem
Os nossos corpos
Há gemidos de dor por toda a Terra
Mas não há remédio
Há montanhas de alimentos
Todos envenenados!
Há fome de tudo
Principalmente de amor
Há desamor entre os povos
E entre irmãos
E a guerra abriu todas as fronteiras
A peste tem livre acesso
O caos é a rotina dos homens
E meu olhar não suporta
O fim que se aproxima
Em cavalos alados que voam em nossa direção!!!
Somos todos culpados.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Work in progress... (Maria G. Ibanhes)

              

Se essa vida me deixasse fazer poesia
Sem gosto de desespero, sem sabor de agonia...
Se essa vida me deixasse fazer poesia
Afastasse o desalento, quebrasse a monotonia
Se essa vida florescesse e me deixasse fazer poesia
Ignorasse a maldade, pisasse na hipocrisia
Se essa vida me deixasse fazer poesia
Com doçura de amor quentinho e vislumbres de acrobacia...
Se essa vida fosse menos madrasta e mais madrinha...
Se surgisse um raio de sol no final do cinza...
E se um arco-íris surgisse, colorindo o horizonte,
Eu faria um poema com sabor de eternidade
E bonito como o amor que sinto por você...
Profundo como os teus olhos
Suave como o teu sorriso
Talvez, eu espere todo o furacão passar
E reconstrua um Mundo sem lágrimas...
Mas, talvez, eu faça poesia de dor
 E espere o inverno, o ódio, a intolerância, os maus  
O inferno passarem...  Talvez...
E só depois, quando tudo for primavera
Eu escreva aquele poema de amor
Eu já não aguento tanta escuridão!

terça-feira, 12 de maio de 2015

À luz de velas (Maria G.)



Não digo
O que a luz da vela
Revela
Na chama do teu olhar
Que me chama
Pra trama
De sonhos saber tramar
Veloz brincadeira
Pro mundo acordar
Depois, o cansaço do ato
Meu colo
Teu  solo
A te acalentar
E eu, teu sono velo
No veludo escuro
Da noite que não tem luar

terça-feira, 17 de março de 2015

Diálogo com Bukowski Maria G. Ibanhes


Preciso tomar um banho
Para ir ao trabalho
Mas Bukowski não deixa
Me aconselha a pegar
A high way
E depois, as veredas do sertão
Enfrentar os pedregulhos
E arrancar poesia
Das pedras, da terra rachada
Dos espinhos, dos rios secos
Bukowski me disse
Larga mão do job
E vai sonhar com pássaros
E eu, imediatamente
Pensei no galo de campina
E no cancão preso
Na gaiola de minha amiga de infância
Pensei no viveiro de pássaros
Do pai de uma outra amiga
Cheio de canários
E barulho dos mais variados cantos
E as calopsitas da minha mãe?
Andam pela casa em pacífico convívio
Com o gato
“Um gato que não mata pássaro”
Ausência de dor!
A dor chegou de outra forma
Bang!
E atingiu minha alma
E isso é real!
E Bukowski continuou me instigando
A fazer poesia do dia-a-dia
Da minha bio-grafia
Tão sem poesia
Cheia de dor
Fazer fábulas poéticas
E delirantes do meu cotidiano
E eu lhe disse:
Meu único delírio é meu amor
É o amor pelos meus
E isso também causa dor
Porque a dor deles
É também a minha
Perpassa minha escritura
À revelia da minha vontade
Mas essa escritura doente
Dolorida, enferma
Me salva da loucura
Da morte!
Não uso entorpecentes
Nem tenho talento para ser bêbada
Nem vou à casa de Deus
Para aguentar a vida
Deus onipresente
Mergulhou no meu inconsciente
E lá ficou
Não preciso de igreja
Por isso.
Mas não posso largar o job
Não sei morrer de fome
E poesia não compra pão
Compra lua
E imaginação
E afronta o SISTEMA
Afrontar é meu forte
Eu faço poesia no drible
E mando os caretas se foderem!
Bukowski vibrou e disse:
“O poeta nada pode sem sofrimento”
Eis a nossa maldição, pensei eu
Me incluindo entre os poetas
Eu, tão aprendiz!
Mas sabia que a fonte poética
Estava em meu quintal
No meu meio do sertão
E no que a vida me fez.
Entre calangos e pássaros
E nas estórias
Que nunca contei.


terça-feira, 10 de março de 2015

A cabra (Maria G. Ibanhes)


De poeira e vento
Era aquela tarde crepuscular
E eu seca e faminta
Remoía com gosto
Aquelas últimas vagens de algaroba
Meu olhar caprino
Era triste e agourento
Prévia meu fim
Como o das minhas irmãs
Que morreram esqueléticas de fome
Seus ossos espalhados
Pelos terreiros ou na beira do açude vazio
Terra rachada!
Devastada como o olhar de sinhá
Que eu sei
Pensa me fazer alimento
Aquelas rugas na testa e os olhos franzidos
Rugas forjadas pela seca
Mais do que pelo tempo
Mostravam seu pensamento
Se eu ainda me arrastava
Por entre a caatinga
Devia isso ao pequeno
Que me dedicava amor
E a quem alimentei com meu leite
Mas agora minhas tetas
Saquinhas murchas
Nada tinha a ofertar
E a família tinha fome
A caça estava escassa
O pai, vez ou outra, achava um preá
Um teju, um tatu
Mas os bichos estavam fugindo
Pro oco da terra
E os homens, cada vez mais, ocos de fome
Ai de mim! Ai deles, ai de nós!
Que eu não me adentre ao reino da morte!
Os olhos fundos dos meus donos
Têm a fundura das cacimbas
E o salobre da água restante
Talvez, eles tenham encontrado
Em sonho, olhos laminados
De sol e desespero
No reino de sonho da morte
Lá, os mandacarus brandem espinhos
E as aves despenam suas asas
O vento é lânguido
E não aplaca o calor
E os rostos das gentes
São pálidos e ossudos
E dos seus olhos
Límpidas lágrimas fulgem
Misturam-se ao fogo
Que brota da terra
Eu não queria morrer
Mas aquele foi meu último entardecer
Eu fui, cedinho, me embrenhando
No campo de nuvens
Sentindo a mão do pequeno me acariciar
O sol começava brilhar
E eu sentia gotas mornas
Me aguar
Eram as lágrimas do pequeno
Último alento
Acalanto
Para o meu caminhar
Depois, tudo era verde
E eu pastava feliz
E ainda podia sentir as carícias do pequeno.