Açucena

Açucena

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Carta de amor (Maria G. de Ibanhes)

 

Eu estava querendo escrever uma carta de amor
Daquelas cheias de corações vermelhinhos
Mas cartas de amor são tão over
Depois do celular, da internet, do facetime
As cartas de amor ficaram out
Por outro lado, o meu olhar poesia
Escapa desses meios
Fugidio, ele plasma
Na escrita
E minha palavra poética
Dita
Pode perder o sentido
Porque escrever é carimbar
Autenticar o amor
Registrar!
O escrito amoroso pode ser passaporte
Como a madeleine de Swann
E, num momento,
Recuperar o tempo perdido
No fundo da gaveta
Amarelada
A cartinha
Vira memória/lembrança
Não quero deixar fugir minhas palavras
Não quero deixar de descrever nossas paisagens
Sempre tão idílicas
Apropriadas à descrição
O mares verdes, azuis, refletindo nossas miragens
O Cristo Redentor, querendo nos abraçar
Os centros históricos das mais diversas cidades
Gravando nossos pés nas ruas
As florestas se harmonizando
Com a nossa natureza selvagem
As cachoeiras nos banhando os corpos
Purificando nossas almas
Num banho de renovação
É mais romântico escrever:
Prefiro teus 50 tons de mel
Do que  os 50 tons de cinza
Talvez, escrito
Não pareça tão ridículo
Talvez, as cartas de amor
Não sejam tão ridículas
Como quer Pessoa
Na escrita
O verbo reverbera
Ecoa
Chama complementos
Ou, simplesmente
Não transita
Mas na carta de amor
Amar é sempre transitivo
E vai direto pra seu complemento
Enquanto o dito
Fica pelo não dito
E se perde no ar...


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Beduíno (By Maria G. Ibanhes)


Tenho andado por todos os desertos
Vivi entres secas e rios vazios
Os verdes que vi
Foram aqueles das vegetações desérticas
Espinhosas como a vida
E o da esperança teimosa
Que me habita
Tive que ser rude nos movimentos
Nas atitudes, tantas vezes
Mas o meu olhar denuncia
Há, na minha alma
Uma imensidão suave e terna
De sentimentos – o amor
Pelas pequenas coisas do chão
E das raízes que me fincam nesse torrão
Hostil, destemido
O qual moldou minha própria coragem
E nele, renasci cacto
Depois de morrer pela justiça
Que acreditei.
Continuo explorando desertos
Mas, hoje, sei aguar meu próprio corpo
E minha alma é um oásis.






quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Uma morte anunciada (Mary Ibanhes)


Lá no banhado quase seco
Lodaçal escuro
Preconizava abismos
Todos os desertos abraçavam
A esperança da noite
E secavam os sonhos
Até os cactos pareciam
Secar
Urubu tinha aberto as asas
Na cumeeira 
E um bem-te-vi
Cantava insistente
Bem-te-vi, bem-te-vi!
Na noite anterior
A coruja piou
Fazendo agourenta seresta
Ventos atravessavam as portas
Escancaradas da casa amarela
Rodopiavam
Cambalhoteavam  
Cortavam o arrebol
Os bichos se recolhiam
Em estranho silêncio de fome
Todo aquele laranja crepuscular
Se fundia com o avermelhado
Que manchava o chão
Quente como fogo
Terra molhada
De sangue
Nunca mais o aboio do vaqueiro
Nunca mais seus olhos
Veriam a alva manhã
Nem mirariam a lua
Nem o infinito sertão
Nem buscariam no tempo
Advinhas pra chuva
No céu, chegaria
Um anjo justiceiro
“E tudo que escrevi 
Nunca será o que quero dizer”


domingo, 2 de novembro de 2014

Voo dos anjos (Maria G. de Ibanhes)


Quando um anjo voa
Buscando o azul do firmamento
As palavras somem
Fica a dor
Latente
Inominável
Inexorável
Imensurável
Dilacerante
E as interrogações
Não pronunciadas
O silêncio é bálsamo
Mas a tristeza soa
À revelia das palavras não ditas
E é quase palpável
Talvez, uma única resposta:
Anjos não se adaptam
A essa terra devastada
Voam em busca de luz
Oremos!




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Surreal Sertanejo (By Mary Ibanhes)


Em meio ao areial solto
Nas ” ilimitades”  amarelo-rubras do sertão
Há, em minha alma, lampejos corados
De futuros mais-que-perfeitos
E solidões outonais
Onde o passado tem punhais
De mandacarus amortecidos pelo tempo
Descorados e brandos...
Só o cheiro da terra molhada de chuva, o desenho de amor infinito
Que fito em teus olhos
Fazem minha alma brotar e transladar
Aqueles futuros mais-que-perfeitos para o futuro imediato
Porque mais que chuva, eles trazem
Verdes e plantações e farturas
De amor, de lírios do campo, de milharais
E formosuras comestíveis
Alegrias caprinas, bovinas e passarinhescas
Eu e tu, no sertão sem seca
Nessa hora, todos os deuses rezam
Enquanto eu e tu descansamos embaixo de frondoso umbuzeiral...

sábado, 14 de junho de 2014

Noite negra (By Mary Ibanhes


Noite terrível!
No silêncio das ermas horas
Um tic-tac de coração estrondava
Os vazios da caatinga
O pensamento via miragens estéreis
De  amores violados
Como a terra devastada
Nada havia para assegurar a paz
O canto da coruja era místico
E preconizador
Da transformação da angústia em dor
E a doçura daquele coração
Petrificava em medo
A voz do vento
Cortando os espinhos do mandacaru
Sibilava segredos distantes e medonhos
Nem os grilos cantavam
Embaixo das touceiras de facheiro
Nem lua havia para jogar
Um rasgo de luz
Que iluminasse o verde daquele olhar
Feroz, triste, morto
Ou mostrasse outra cor
Além do negrume da noite
Do “assum preto” e daquela
Alma cega como o pássaro
Que diferente dele não sabia cantar
Mas urrava dilacerada
Por uma “verdade” presumida
E seus urros açoitavam o tempo
Nem a chuva torrencial poderia
Lavar tanto desassossego
E alegrar os traços
Daquela face desesperada
Mas um assobio da consciência
Lembrou-lhe de quem ela era
Da terra de onde viera
E da força monumental
Que sempre a salvou
Filha da terra seca
Filha da luz do sol
Estrela ressuscitável
O amanhã nasceria
E ela colheria horizontes
Teceria enluaradas fantasias

quinta-feira, 5 de junho de 2014

“Pra não dizer que não falei das caçimbas” (By Mary Ibanhes)


De vivos, só há  
Eu e aquela caçimba
No meio daquele rio sem fim
Seco, arenoso e  morto
O resto são ossadas de bichos
E no infinito, nenhuma promessa
O excesso de luz promete  trevas
A  água da caçimba é salobra
De verde, só existem meus olhos
E  minha esperança
De seguir  “rio abaixo”
E  encontrar o mar
Mas o mar não é solução
Que dissolve angústias de sertanejo
No coração aquele aperto
De quem  sabe que o fim virá
Mas do fundo da alma
Nasce  uma oração
 E se não é miragem
Fotografada pelo meu olhar
 Miro uma revoada de asas brancas
Voltando para o sertão
Talvez a chuva venha
E minhas lágrimas também
Molhando as securas da terra e dos amores perdidos.