Açucena

Açucena

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Beduíno (By Maria G. Ibanhes)


Tenho andado por todos os desertos
Vivi entres secas e rios vazios
Os verdes que vi
Foram aqueles das vegetações desérticas
Espinhosas como a vida
E o da esperança teimosa
Que me habita
Tive que ser rude nos movimentos
Nas atitudes, tantas vezes
Mas o meu olhar denuncia
Há, na minha alma
Uma imensidão suave e terna
De sentimentos – o amor
Pelas pequenas coisas do chão
E das raízes que me fincam nesse torrão
Hostil, destemido
O qual moldou minha própria coragem
E nele, renasci cacto
Depois de morrer pela justiça
Que acreditei.
Continuo explorando desertos
Mas, hoje, sei aguar meu próprio corpo
E minha alma é um oásis.






quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Uma morte anunciada (Mary Ibanhes)


Lá no banhado quase seco
Lodaçal escuro
Preconizava abismos
Todos os desertos abraçavam
A esperança da noite
E secavam os sonhos
Até os cactos pareciam
Secar
Urubu tinha aberto as asas
Na cumeeira 
E um bem-te-vi
Cantava insistente
Bem-te-vi, bem-te-vi!
Na noite anterior
A coruja piou
Fazendo agourenta seresta
Ventos atravessavam as portas
Escancaradas da casa amarela
Rodopiavam
Cambalhoteavam  
Cortavam o arrebol
Os bichos se recolhiam
Em estranho silêncio de fome
Todo aquele laranja crepuscular
Se fundia com o avermelhado
Que manchava o chão
Quente como fogo
Terra molhada
De sangue
Nunca mais o aboio do vaqueiro
Nunca mais seus olhos
Veriam a alva manhã
Nem mirariam a lua
Nem o infinito sertão
Nem buscariam no tempo
Advinhas pra chuva
No céu, chegaria
Um anjo justiceiro
“E tudo que escrevi 
Nunca será o que quero dizer”


domingo, 2 de novembro de 2014

Voo dos anjos (Maria G. de Ibanhes)


Quando um anjo voa
Buscando o azul do firmamento
As palavras somem
Fica a dor
Latente
Inominável
Inexorável
Imensurável
Dilacerante
E as interrogações
Não pronunciadas
O silêncio é bálsamo
Mas a tristeza soa
À revelia das palavras não ditas
E é quase palpável
Talvez, uma única resposta:
Anjos não se adaptam
A essa terra devastada
Voam em busca de luz
Oremos!




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Surreal Sertanejo (By Mary Ibanhes)


Em meio ao areial solto
Nas ” ilimitades”  amarelo-rubras do sertão
Há, em minha alma, lampejos corados
De futuros mais-que-perfeitos
E solidões outonais
Onde o passado tem punhais
De mandacarus amortecidos pelo tempo
Descorados e brandos...
Só o cheiro da terra molhada de chuva, o desenho de amor infinito
Que fito em teus olhos
Fazem minha alma brotar e transladar
Aqueles futuros mais-que-perfeitos para o futuro imediato
Porque mais que chuva, eles trazem
Verdes e plantações e farturas
De amor, de lírios do campo, de milharais
E formosuras comestíveis
Alegrias caprinas, bovinas e passarinhescas
Eu e tu, no sertão sem seca
Nessa hora, todos os deuses rezam
Enquanto eu e tu descansamos embaixo de frondoso umbuzeiral...

sábado, 14 de junho de 2014

Noite negra (By Mary Ibanhes


Noite terrível!
No silêncio das ermas horas
Um tic-tac de coração estrondava
Os vazios da caatinga
O pensamento via miragens estéreis
De  amores violados
Como a terra devastada
Nada havia para assegurar a paz
O canto da coruja era místico
E preconizador
Da transformação da angústia em dor
E a doçura daquele coração
Petrificava em medo
A voz do vento
Cortando os espinhos do mandacaru
Sibilava segredos distantes e medonhos
Nem os grilos cantavam
Embaixo das touceiras de facheiro
Nem lua havia para jogar
Um rasgo de luz
Que iluminasse o verde daquele olhar
Feroz, triste, morto
Ou mostrasse outra cor
Além do negrume da noite
Do “assum preto” e daquela
Alma cega como o pássaro
Que diferente dele não sabia cantar
Mas urrava dilacerada
Por uma “verdade” presumida
E seus urros açoitavam o tempo
Nem a chuva torrencial poderia
Lavar tanto desassossego
E alegrar os traços
Daquela face desesperada
Mas um assobio da consciência
Lembrou-lhe de quem ela era
Da terra de onde viera
E da força monumental
Que sempre a salvou
Filha da terra seca
Filha da luz do sol
Estrela ressuscitável
O amanhã nasceria
E ela colheria horizontes
Teceria enluaradas fantasias

quinta-feira, 5 de junho de 2014

“Pra não dizer que não falei das caçimbas” (By Mary Ibanhes)


De vivos, só há  
Eu e aquela caçimba
No meio daquele rio sem fim
Seco, arenoso e  morto
O resto são ossadas de bichos
E no infinito, nenhuma promessa
O excesso de luz promete  trevas
A  água da caçimba é salobra
De verde, só existem meus olhos
E  minha esperança
De seguir  “rio abaixo”
E  encontrar o mar
Mas o mar não é solução
Que dissolve angústias de sertanejo
No coração aquele aperto
De quem  sabe que o fim virá
Mas do fundo da alma
Nasce  uma oração
 E se não é miragem
Fotografada pelo meu olhar
 Miro uma revoada de asas brancas
Voltando para o sertão
Talvez a chuva venha
E minhas lágrimas também
Molhando as securas da terra e dos amores perdidos.

sábado, 24 de maio de 2014

Um blues no deserto (By: Mary Ibanhes)


Em mim, o deserto
Todos os desertos
Sem  previsão de chuva
De palavras soltas, muito menos de poemas!
Talvez chuvisque palavras cactos
Espinhosas e sem delicadeza
E no meio das dunas
Surjam  versos  de dor
Poesia também se faz com
Almas e corações esfacelados
Entre uma rima e outra
Sempre nasce uma flor.
E o vento arenoso
Sopra um blues manhoso
A chorar o amor
Que não posso ter.